Bate-Papo Virtual


08/04/2008


Caro Meu Outro Eu

Antes de qualquer coisa, te peço que, ao menos uma vez na vida, você me dê voz. Por isso, ouça quietinha tudo o que eu tenho para dizer.

Ando meio de saco cheio com você, meu “querido” outro eu!

Não agüento mais você me dizendo o que fazer!

Não agüento mais você me dizendo para eu ficar calma e não explodir! Quero que você vá à MERDA com esse seu jeitinho de tentar resolver tudo da melhor maneira.

Será que você não percebe que isso me faz mal??

A sua vida pertence também a mim.

Deixe-me aparecer de vez enquando!

Deixe-me tomar algumas atitudes uma vez ou outra.

Sofro quando te vejo mal e não posso tomar nenhuma atitude. Você sempre me manda ir embora.

Você, caro meu outro eu, às vezes é tão ridícula. Não faz mal a ninguém, de vez enquando, mandar alguém ir se fuder!

Não agüento mais ver você sendo machucada por outras pessoas e eu aqui tendo que assistir tudo isso sem tomar nenhuma atitude!

Acorda!!! Sua idiota, nós não nascemos para sofrer.

Deixe-me inventar a morte de alguém para ficarmos em casa sem fazer nada!! De vez enquando, perder a hora do trabalho.

Permita-me dar um tapa na cara daquela vagabunda que insiste em dar mole para o nosso marido. E xingar aqueles otários que se acham gostosos e nos catam como se fossemos umas cadelas.

Quero deixar todos as luzes acessas e não me preocupar com a conta no final do mês. Sem contar todos aqueles sapatos que eu quero comprar, podemos parcelar no cartão de crédito e depois a gente vê como faz para pagar.

Escute-me com atenção, meu caro outro eu: não nos cobre tanto, sejamos imperfeitas sem culpa.

Espero que estas palavras de certa maneira que comovam, pois caso contrário, aprenda a viver sozinha, estou indo embora.

 

Atenciosamente,

Você

Escrito por Débora Dallia às 15h42
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Depois de muito tempo, estou aqui dedicando parte do meu tempo para fazer algo que há algum tempo me propús a fazer e não cosegui! Criar um blog para compartilhar idéias, pensamentos dos mais diversos assuntos. Algo que me dá prazer, que me relaxa, mas que deixei de fazer. Por quê? Ora, por falta de tempo! FALTA DE TEMPO?!!

Hoje, então, me peguei refletindo sobre a nossa falta de tempo. E o que é tempo?? Qual é o nosso tempo? O que é a nossa vida? Por quê toda essa falta de tempo nos causa tanta angústia, insatisfação??

Para isso, escolhi o texto da psicóloga Lígia Guerra. A

través desta ferramento, proponho uma reflexão acerca do conceito/significado que utilizamos para a palavra tempo.

Espero que gostem! Boa leitura!

 

Angústia versus falta de tempo

Como equacionar emoções e imposições? Precisamos redimensionar exatamente o que a palavra tempo significa

Por que fiz eu dos sonhos a minha única vida? Fernando Pessoa

O pensamento de Pessoa confere um dos sentimentos mais autênticos que tenho percebido em meu trabalho como analista: As pessoas estão muito mais felizes sonhando do que vivendo. O problema central desse comportamento não é apenas a fuga da realidade, que pode ocorrer, mas principalmente a falta de tempo que em rápidos sonhos pode ser driblada, assim, se eu não tenho tempo de viver no mundo real as minhas vontades ao menos no imaginário eu consigo. Através desse artifício podemos ser felizes, abraçar quem amamos, temos tempo para fazer amor, para praticar esportes, para jantar a luz de velas, para ver um por do sol no parque, para viajar... O difícil é voltar para realidade e ter que lidar com a ausência desses prazeres simples ou sofisticados que fazem bem a qualquer mortal.

Mas, se existe uma insatisfação tão grande em relação à falta de tempo, porque não conseguimos mudar essa dinâmica ou o que poderíamos fazer para transformá-la? Em primeiro lugar precisamos fazer uma troca, redimensionar exatamente o que a palavra tempo significa, se cada vez que formos falar em tempo falarmos em vida, certamente teremos um novo olhar para as diversas situações que enfrentamos; experimente a troca: “Eu não tenho tempo para me exercitar” troque por “eu não tenho vida para me exercitar”, ou, “eu não consigo dedicar tempo para minha família”, troque por “eu não consigo dedicar vida para minha família.”

Entender que tempo é vida, nos obriga a reavaliar as nossas opções diárias e principalmente a forma que usufruímos dessas opções. É vital ficarmos atentos aos seqüestradores do nosso tempo como jornais, Internet e televisão, reuniões intermináveis, excesso de perfeccionismo, competitividade, medos, culpas, rigidez, necessidade de poder e reconhecimento, todos esses seqüestradores externos (situações) e internos (emoções), nos levam vida e subtraem uma preciosa energia. É preciso procurar por equilíbrio, não ser dedicado demais a tudo e a todos, mas também não ser relapso com os sentimentos alheios, para isso é preciso que estejamos primeiramente em equilíbrio com nós mesmos, com as nossas necessidades e atitude, ficar apenas reclamando do que não temos não resolve absolutamente nada! A falta de ação causa uma profunda infelicidade, são maridos que reclamam de suas mulheres que ficam mães eternamente e adiam para sempre a volta da mulher e amante; esposas que vem seus maridos preocupados apenas em prover e não em amar; o comodismo de achar que não seja necessário nutrir o que já foi conquistado, como a crença de que estar casado e ter filhos manterá para sempre uma união; corpos que por falta de cuidado se deformam; a crença que a infelicidade de toda uma vida se deve a um emprego insatisfatório e não a uma opção infeliz, a de ser acomodado.

Como disse Gandhi: “Acreditar em algo e não o viver é desonesto”. Talvez a nossa falta de tempo seja a absoluta falta de honestidade com nós mesmos, de aproveitarmos o ‘tempo’ ou a ‘vida’ com a intensidade e dedicação que ela merece. Será que a falta de tempo não se deve a nossa absoluta ineficiência em saber administrar prioridades? Será que justamente por não termos estratégias emocionais e identificarmos as nossas necessidades acabamos nos perdendo por esse caminho sem mapa? É sempre mais fácil invejarmos os que conseguem ser organizados ou culparmos uma situação pela nossa insatisfação, do que assumirmos a nossa própria incapacidade de esculpirmos as nossas próprias vidas. Pense nisso!

FONTE: http://canais.rpc.com.br/familia/profissao/conteudo.phtml?id=559932

Escrito por Débora Dallia às 14h38
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09/11/2007


O começo do fim.

Hoje me dei ao direito de tirar a máscara e mostrar toda a minha angústia e sofrimento. Tirar da boca o sorriso e deixar as lágrimas rolarem. Lá fora as coisas continuam na mesmice, as estrelas ainda brilham, os pássaros ainda cantam, os carros passam... Aqui dentro, no escuro do meu quarto, a música que mais gosto chora e clama e... sangra, diante de um sentimento que por muito tempo ficou trancado dentro mim em um lugarzinho que desconheço. Mas que agora, não mais dentro de mim, mas sim ao meu lado, me acompanha em todos os meus passos, como uma sombra que não se cansa de assombrar meus pensamentos.
Oh Deus! Como anseio por uma resposta, uma única resposta!
Se você está me ouvindo, se tem alguém me ouvindo, me conte uma história feliz, que tenham anjos derramando todo o seu afago, toda a sua ingenuidade, para que eu possa ter bons sonhos. E me faça dormir. Sim me faça dormir, se não eternamente, ao menos até quando toda essa dor passar.
Dói-me muito, não sou mais eu, sou algo que desconheço e que repuguino: me cuspo, me xingo, me odeio. Ah! E esta música tão sombria que não quer parar de tocar. De onde ela vem?  Não consigo evitar! Vem aqui de dentro, bem lá do fundo e o refrão que se repente laboriosamente o que não quero ouvir. O amanhã incerto do que vai ser do meu eu, que já não é mais tão meu, transformado pela eloqüente decomposição dos princípios da nossa existência. Quem sou eu? Onde estou? O que faço?
Onde estão as palavras? Não consigo encontrar, justo agora que tanto preciso delas! Estão escondidas em algum lugar por aqui, para não serem infectadas por este sentimento de degradação que agora faz parte de mim, tão certo quanto a minha incerteza.
E estes pensamentos que aqui se revelam, manchando esta folha com a cor da derrota, tão amarga e agnóstica que quase não posso suportar. Incrédula impressionabilidade. Impiedoso desejo pelo desaconchego do começo do fim.

Por Débora Dallia

Escrito por Débora Dallia às 09h16
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25/09/2007


O anti-super-homem


"Cultivai, hoje, uma sadia desconfiança, ó homens superiores, ousados e sinceros! E guardai secretas as vossas razões. Porque o hoje pertence à plebe." - Nietzsche “Assim falou Zaratustra”, IV parte,1884

Por pregar inutilmente entre os homens, o profeta Zaratustra, cansado, recolheu-se de volta a sua montanha, de onde saíra uns tempos antes para a seu malograda missão. Solitário, sentou-se lá no alto, próximo da caverna, cercado pelos seus bichos de estimação, e, com um anzol e um caniço na mão, simulou estar atrás de peixes em águas que não existiam ao seu redor. Ele, de fato, não queria peixes, mas sim lançar sua isca no “mar dos homens”, para fisgar um deles. Não qualquer um. Mas um em especial: o super-homem (übermensch), a quem esperava fazer “subir à minha altura”. Acreditava que numa data qualquer, ainda que longínqua, o super-homem seria atraído pela mensagem do profeta-pescador Zaratustra.

Nesta sua conhecida fantasia, de glorificação do super-homem, Nietzsche apostava que a redenção da Humanidade futura, a do século 20 que então se anunciava, ocorreria com a chegada desse novo messias. Um salvador não provindo do mundo divino, do transcendental, mas dos mortais, compondo como que uma nova raça dominadora. Em bandos não teriam escrúpulos. Obedeceriam apenas as suas próprias leis e vergariam quaisquer outras demais vontades às suas, exclusivas, formando uma oligarquia de tiranos que consideravam a bondade, a solidariedade, o cristianismo e o socialismo, fraquezas desprezíveis.

Bem antes de conceber este imaginário ser anti-democrático, Nietzsche acentuou sua misantropia quando soube na Suíça dos eventos da Comuna de Paris de 1871. A noticia (exagerada) que o levante dos trabalhadores da capital francesa incendiara ou vandalizara honoráveis prédios, arruinando alguns dos sagrados símbolos da cultura européia, horrorizou-o. Desde então convenceu-se que todo o manancial artístico e cultural estava ameaçado pela possibilidade de outras rebeliões proletárias surgirem no futuro.

Passou a ver um mundo do futuro esteticamente cinzento, dominado pela crescente presença do kitsh e da vulgaridade democrática que, como uma mancha de óleo, avançava lançando sombras sobre o patrimônio histórico da Europa aristocrática, aviltando, plebeizando e degradando tudo na sua passagem. Daí, em resposta, o seu culto ao super-homem. Ele era a esperança. Destemido e impiedoso, seria um novo titã na defesa da cultura superior espantando a barbárie. Para salvá-la, esta cultura da elite, Nietzsche exagerou. Justificou até a necessidade da escravidão.

Corrido mais de século dos vaticínios do filósofo louco, é visível que grande parte dos seus temores não se confirmaram. Não foram as massas democráticas quem arruinaram o valioso patrimônio cultural europeu. Esta responsabilidade cabe inclusive a dois dos seus mais reconhecidos admiradores, Mussolini e Hitler, que, com suas guerras malucas, fizeram-no por desabar a bombas.

Porém como Zaratustra-Nietzsche prenunciou, a sociedade de massas moderna não se conteve em apenas ameaçar o mundo com sua ordinarice e espantoso mau-gosto, Não ficou só ai, na intimidação. Tudo se passa hoje entre nós como se os pobres de espirito, dominantes na comunidade multitudinária contemporânea, afinal convencidos de que não lhes reservaram nenhum Reino dos Céus lá no além, resolvessem ficar por aqui mesmo orientando ao seu capricho o universo artístico e estético, anunciando com estridência o seu vim, vi e venci. O produto disso é essa abominação visual e auditiva que nos cerca.

Pobres de modelos e privados de exemplos ilustres, como que dominados por uma perversão barroca, que prima em fazer do torto e do deformado um ícone, seduziram-se pelo que lhes estava mais abaixo ainda, pela coreografia e indumentária do marginal. Se os envolventes movimentos políticos totalitários do nosso século fracassaram, o totalitarismo estético da multidão sobreviveu. Caso Zaratustra retornasse entre nós e lançasse novamente sua esperançada farpa curva no mar dos homens, seguramente, como tantos outros profetas fracassados do nosso século, traria agora enganchado nela o antípoda do seu herói: o anti-super-homem.

FONTE: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/indice.htm

Escrito por Débora Dallia às 16h10
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14/09/2007


"Ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém".Kierkegaard

"...Segundo Kierkegaard, para que o indivíduo se veja no espelho, torna-se uma condição importante que ele tenha um "conhecimento" prévio de si, ou seja, que o ser humano veja, sinta e perceba quem ele está sendo naquele instante, que ele tenha consciência-de-si.

Quando negamos a nós mesmos a possibilidade de obter essa consciência-de-si, não nos dando conta do que sentimos, pensamos, percebemos e agimos, ampliamos de tal forma essa desconexão individual, que simplesmente usamos o "piloto automático" interno diariamente, que nos leva a um distanciamento cada vez mais profundo de uma vida saudavelmente integrada, visto que nos encontramos longe de nós mesmos.

Um sábio oriental um dia falou: "Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo - e este é maior" (LAL, P. - The Dhammapada, 1967). Por incrível que possa parecer, a idéia quantitativa de sucesso na vida ("conquistar um exército") tem sido a mais promovida no mundo ocidental, em detrimento do cultivo de uma idéia mais qualitativa de sucesso, cuja promoção busca a excelência da saúde individual (conquistar a si mesmo). Sem a devida reflexão do quanto a pessoa se violenta para simplesmente "possuir coisas", o ser humano segue abrindo mão de "ter" a si mesmo, ou seja, de "ser a sua grande conquista". É esse paradoxo da existência que leva o indivíduo a se perguntar: quem é essa pessoa que eu vejo no espelho? Esse sou eu? Eu não acredito no que estou vendo! Erving e Miriam Polster falam que "as pessoas são notoriamente nebulosas, até mesmo distorcem a percepção que têm de si mesmas.

A objetividade de si "consiste pois em um processo de exploração de si, a procura do eu autêntico para além da imagem de si que o indivíduo quer projetar e aquela que de fato apresenta aos outros" (Mailhiot, Gérard Bernard. "Dinâmica e Gênese dos Grupos", 1991). Penso que seja esta exploração de si mesmo, o conhecer-se previamente ao qual Kierkegaard se referia, que dará ao indivíduo uma percepção clara de quem está do outro lado do espelho..."

"Um total estranho, num dia negro
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo -
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais".

Fica então a pergunta: "Quem é a pessoa que você vê ao olhar-se no espelho?".

FONTE: www.existencialismo.org.br, por Marco Antonio Sales - Psicoterapeuta existencial formado pela SAEP                             Obs: apenas um recorte do texto original, o texto na íntegra vcs encontram no site acima.

Escrito por Débora Dallia às 10h51
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13/09/2007


RENAN ABSOLVIDO
Duas agressões à sociedade

Por Alberto Dines em 13/9/2007

Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/9/2007

Foram duas as agressões: a primeira, escancarada, foi a absolvição do presidente do Congresso, Renan Calheiros, que segundo a Polícia Federal cometeu vários ilícitos. A segunda agressão, mais grave, aterradora, pode ser chamada de "apagão" institucional. O Senado da República foi convertido desde a terça feira num verdadeiro porão – fechado, lacrado, blindado ao escrutínio da sociedade, ilha autoritária em plena Praça dos Três Poderes.

A varredura eletrônica do plenário, a proibição do uso de computadores pelos senadores, a recomendação para que os celulares fossem desligados e finalmente o pugilato entre os leões-de-chácara e os deputados que foram autorizados pelo STF a assistir ao julgamento desvendam a razão do secretismo da sessão: impedir a presença da mídia.

Renan Calheiros e os cangaceiros de todo o país que o apóiam sabiam que a presença da imprensa seria a única força capaz de impedir a absolvição. Apostaram todas as fichas no sigilo. Não se importavam em agredir a sociedade, só não queriam testemunhas.

Os malfeitores trabalharam no escuro, eles têm prática, ganharam o primeiro round. Nos próximos, será diferente – terão que ser travados às claras.

FONTE: www.observatoriodaimprensa.com.br

Escrito por Débora Dallia às 16h24
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29/08/2007


A ilha dos recusados

CRÔNICA
A ilha dos recusados
João Emanuel Carneiro

Sem-teto, sem-terra, sem-emprego, sem nada. Agora vivemos a era dos "sem". Nada mais apropriado. Afinal, estamos num país que sempre foi regido pelo "sem".

O conceito de "sem" pode ser inclusive ampliado. É possível incluir, por exemplo, novas categorias: os sem-namorado, os sem-namorada, que podem degenerar na categoria ainda mais moribunda dos sem-mulher e dos sem-homem, os sem-carinho, os sem-auto-estima, os sem-jeito. Esses, coitados, fundadores da liga dos "sem".

O mais curioso da designação atual da nomenclatura "sem" é que estão embutidas nesse "sem" uma indignação, uma perplexidade e uma revolta diante deste mundo cruel que priva os "sem" do direito natural a se tornar um "com". Daí imaginarmos que um dia haverá os sem-home theatre, os sem-jatinho particular, os sem-Jaguar, os sem-piscina, os sem-iate, os sem-Portinari, pra não falar nos sem-caviar, sem-lipoaspiração, sem-peeling, sem-copeiro, sem-jardim, sem-camembert, e por aí vai...

Temos também os sem-dia-a-dia, gente que padece do terrível problema de acordar e não ter nada pra fazer. A lista é encabeçada pelos sem-filme, facção de cineastas que só faz crescer a cada dia, pelos sem-CD próprio, já são mais de 1 milhão de cantores e compositores no Brasil ¿, pelos sem-papel ¿ dá pra encher 100 Maracanãs só com os atores sem-papel no Rio de Janeiro ¿, pelos sem-tela, artistas plásticos que não arrumam dinheiro pra comprar telas e são obrigados a passar a vida fazendo aquarelas em papel e terminam ficando sem-exposição e sem-catálogo, e pelos sem-editora, escritores que não conseguem publicar seus textos cujo lema é "por que o Paulo Coelho vende 1 milhão de exemplares e eu não?!".

Outra vertente são os despossuídos em que a palavra "sem" ainda tem uma conotação pejorativa: os sem-ética, os sem-educação, os sem-talento, os sem-assunto ou os sem-graça, por exemplo. Esses, ao contrário dos outros "sem" de hoje em dia, cujo "sem" é ostentado com orgulho político, têm vergonha de ser "sem", ou muitas vezes nem assumem para si próprios sua sem-vergonhice.
Lembro-me de Amarcord, filme glorioso de Fellini. Ninguém mais "sem" do que o personagem daquele sujeito que trepa numa árvore e grita lá de cima que só desce quando lhe arrumarem uma mulher.

Inspirado no filme de Fellini, aí vai minha sugestão para os sem-afeto, os sem-beijo, os sem-cafuné: gritem, reclamem, façam passeatas, comícios, acampem diante das igrejas. Nas faixas, nos cartazes, escrevam: "Pela distribuição igualitária do amor!". Não é possível que o mundo seja tão injusto a ponto de deixar tantos seres humanos desassistidos daquele que é o direito básico de qualquer concidadão: o amor. Tem amor pra todo mundo. Só é preciso fazer a reforma agrária do afeto.

Escrito por Débora Dallia às 12h40
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